domingo, 12 de março de 2017

De chinelos de dedo na chuva

A chuva deu uma gambeta nos meteorologistas neste fim de semana na serra gaúcha, todos a anunciavam para o sábado, porém, senhora de seus destinos deve ter feito uma parada em lugar não muito distante. Acordou Caxias do Sul muito cedo na manhã de domingo, Muitos despertaram perdidos ainda no sono, grogues tomaram o rumo do banheiro para um xixizinho e aquela olhada básica no espelho. Santos Deus! - Que horas são! 

Aconteceu comigo.
Na cidade onde moro todo o comércio fecha as portas no momento em que você pode ir às compras. Ou seja, eu escolho a quem entregar meu dinheiro, mas tenho de me sujeitar às ordens do dono do comércio. Em fim, Se você acordou ou saltou da cama ao meio-dia, lascou-se. Tudo fechado.

Coragem! Saltei da cama, café da manhã, guarda-chuva, chinelo de dedos e fui à rua em busca de víveres.


A saudade dos tempos de criança sempre me acomete quando saio na chuva de chinelos de dedo. O tempo se armava de nuvens negras, vento quente-frio, relâmpagos e lá se ia a gurizada tomar banho de chuva. Gostava de correr sem rumo para sentir o choque dos pingos no rosto. Uma liberdade que apenas as crianças se permitem durante a vida..


Hoje pela manhã, de chinelos de dedo e guarda-chuva pelas calçadas de São Pelegrino me bateu uma saudade de quando eu não tinha medo de andar de pés descalços e correr pelas ruas de chão batido da minha São Borja, pelos campinhos de pelada e pelos campos infestados de rosetas.


Hoje, o mais perigoso que cometo é enfrentar uma chuvinha sem guarda-chuva, ficar sem camisa dentro casa quando está calor e sair de casa para caminhar pelas calçadas de chinelos de dedo. Na chuva.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Filhos, quem lhes dera tê-los

“Filhos são o demo melhor não tê-los... 

Mas se não os temos como sabê-los? Como saber que macieza nos seus cabelos

Que cheiro morno na sua carne, que gosto doce na sua boca! 

Chupam gilete, bebem shampoo, ateiam fogo no quarteirão, porém, que coisa. 

Que coisa louca, que coisa linda que os filhos são!”

(Trecho final do “Poema Enjoadinho” de Vinícius de Moraes)

Teorias fundamentadas em pesquisas, estudos e experimentos sobre a educação dos filhos, geralmente vêm de quem não é mãe ou pai. 

Com exceções, porém carregadas de uma realidade pouco crível. Divulgam-se verdadeiras receitas para lidar com os filhos como se estes fossem os ingredientes complicados dos relacionamentos entre adultos. 

Como “administrar” uma criança em uma separação; na chegada do novo namorado ou namorada? 

De que forma inseri-los no cotidiano dos pequenos? 

A convivência no ambiente escolar; a construção da personalidade e do caráter, tudo é centralizado – e cobrado - do ser mais imaturo. 

Como se a criança fosse o ingrediente de má qualidade. Quando na verdade, o problema da receita está nos adultos, quase sempre. 

Para tudo isso os “doutores”, verdadeiros anunciadores da boa nova para as almas perdidas, têm a solução. Ensinam até como acalmar uma criança, sem nunca terem tomado uma no colo para fazê-la dormir.

Mas, percebo que guardiães do comportamento, da ética e do zelo pela permanência da família como chave para a construção e manutenção de uma sociedade melhor, se negam a ter filhos. 

Mesmo que reúnam todas as condições físicas e sociais tentam impor sua escolha com variados argumentos. 

Optar por não ter filhos, deveria ser tão normal quanto o contrário. Mas seria mais honesto se admitissem que não o fazem por escolherem viver sem o compromisso e a responsabilidade. 

Cuidar de um ser que nasce totalmente dependente, as vinte e quatro horas do dia, às vezes pelo resto da vida. Em alguns casos, para sempre tira a “liberdade”. 

Tudo é colocado como desculpa: a podridão da sociedade; problemas de saúde; falta de grana e, incrível! Alega-se até medo e o não gostar de crianças.

Medo? O que esperar de alguém que tem medo de uma criança? 

Isso sem falar naqueles que abandonam os filhos. 

É preciso respeitar o fato de uns não gostarem de crianças, mas aceitar isso como “normal”...

Mesmo estes que dizem ter medo ou que não gostam dos pequenos, dependeram de alguém que lhes cuidasse enquanto crianças. 

E, mal ou bem, hoje estão por aí. Adultos e desfrutando do mundo.

sábado, 23 de abril de 2016

Bela, recatada e do lar

Foto: José Cruz / Agência Brasil
O que me espanta nas reações, ditas feministas, à matéria da Revista Veja sobre a esposa de Michel Temer é o tom misógino de certas afirmações.

Contraditória, a tentativa de expor como preconceituoso quem simpatizou com a manchete: Bela, recatada e do lar; como se identificar-se com tal perfil de ser humano ou mesmo admirá-lo seja um ato que subjuga a mulher a uma condição secundária. Deixando-lhe à sombra do marido em questão.

É como se a mulher ser feminina, seja um insulto. Ser definida como bela, independente de convenções estéticas, um posicionamento politicamente incorreto. Recatada, uma afronta aos novos arranjos sociais familiares. E do lar então?! Essa parece ser a afirmação que mais causou contrariedades. Alguém lembrou de perguntar, às belas, recatadas e do lar se essas são condições que lhes foram impostas? Ou escolhas?


O que parece incomodar uma parcela da sociedade brasileira é a vontade da outra parcela não querer obedecer aos padrões impostos pelas políticas de gêneros, tão trabalhadas por pequenos grupos, ora no poder e que se auto intitulam precursores, defensores do respeito ao ser humano. Só esquecem de respeitar aquelas que escolhem ser belas, recatadas e do lar.


Parece atrair mais visibilidade ir contra as Marcelas e a quem lhes admira ou mesmo não se importa com suas escolhas. Camuflam suas atitudes culturais de ódio às mulheres porque elas são femininas. Comportam-se como patrulhas, impondo o preconceito sexista e ideológico.


A misoginia é manifestada em várias formas, uma delas é expor como subjugada e subordinada, a mulher que escolhe não ter acesso ao poder nas corporações ou cargos públicos, por preferir uma vida que lhe permita cuidar de seus atributos estéticos, de comportamento e privacidade.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dona Élida

“E como aquele que já não quer o que queria
E por novos desígnios muda aquilo a que se propunha,
Arrepende-se no momento de começar.
Tal me aconteceu na ladeira deserta: porque,
Refletindo nas dificuldades da viagem, abandonei
A empresa começada com tão pouca reflexão.”

Dante Alighieri – A divina comédia – Canto II

Dia desses ao sair de casa, deparei-me com uma flor, um cravo branco equilibrado entre a maçaneta e o marco da porta do apartamento onde mora Dona Élida. 

Entrei no elevador tomado pela curiosidade. Porque aquela flor estava ali? Quem a teria deixado? No prédio onde moro os habitantes vão das famílias, ditas convencionais às pessoas de estilo alternativo de vida. A maioria entre essa diversidade toda é de idosos. 


Pensei:
 
deve ser alguém, num último arroubo de romantismo tentando “levar” a Dona Élida. Boa sorte para Ele! (e para Ela).

Saí pela rua com a sensação de que fui testemunha, provavelmente de uma declaração de amor. Manifestação rara, mas com a sinceridade e comprometimento, em alguns casos, mais fácil de expressar quando se chega aos extremos da idade. 

Mais tarde no trabalho à minha frente uma sentença difícil de aceitar, de ler: o anúncio da morte de Dona Élida. 

Aquela senhora septuagenária, cujos anos haviam lhe roubado boa parte da saúde, que fora abandonada pelos parentes – nunca vi receber alguém, uma visita sequer - morria com uma demonstração de afeto de alguém que se apressou em deixar aquela flor em sua porta.


Jamais saberei se aquele ato foi por amizade, amor ou compaixão. Ou, um amor antigo, nunca revelado. Guardado durante uma vida inteira e só manifestado após a pessoa partir, como uma última tentativa de reparar o pecado fatal da indecisão que acovarda aquele que ama e não consegue admitir. 

Sempre que lembro Dona Élida e a flor, fico com a conclusão de que foi por amor, uma maneira digna de se despedir.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

50 Tons de cinza

Vovó já dizia: “Não deves falar sobre aquilo que não sabes.”


E então fui ler 50 tons de cinza. E, sim, gosto é gosto. Mas como não refletir sobre a quantidade (enorme) de Pessoas que mudaram de vida (sexual) após tal leitura?


Bom, em se tratando de gosto, que baita porcaria de livro! 

Sobre a libido que começou jorrar em alguns corpos, cada um na sua. Mas afirmar que subiram paredes e penetraram fundo no jardim das delícias e justificaram com todas as glândulas o sorriso de satisfação da manhã seguinte, por que leram esse “livro”?! 



Se é para badalar livro de auto-ajuda sexual, prefiro um velho e bom Carlos Zéfiro. Até mesmo o Mestre (Devasso) Nelson Rodrigues com suas passagens de “A vida como ela é”.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Lei Maria da Penha, inócua e deletéria

Ela espera com ansiedade a saída do companheiro da prisão. Mas não por saudade. É por medo, pavor! “Ele vai me matar.", diz a mulher que sofreu por anos nas mãos de um homem violento. Após tanto tempo de agressões diárias, ela resolveu dar um basta no sofrimento. Registrou queixa contra o marido. Ela é uma das milhares (talvez milhões) de mulheres que romperam o medo,  procuraram abrigo na justiça e acabaram mortas.

No dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher), fui convidado a participar do Programa Dito e Feito Debate, na Rádio São Francisco. Lá estávamos: Eu; Duda Costa; Leonir Taufe e José Ademir Theodoro, sedentos para mergulhar em nosso assunto favorito, a Mulher. Sim! Estamos, sempre no Programa Na Torcida com o tema futebol apenas como pretexto para incursionarmos nesse universo desconhecido, jamais decifrado e, atraente  que é a Mulher. Na oportunidade afirmei que a Lei Maria da Penha é inócua e deletéria.

O Zé e o Leonir me atacaram sem clemência. Falaram como verdugos de um ignorante em leis. O que poderia eu argumentar contra dois bacharéis? Quase fui convencido que essa tal lei é um “grande avanço”. Não me dei por satisfeito. Usei vários exemplos para provar que no Brasil, a Mulher continua à mercê de bandidos covardes. Medida Protetiva não protege, ao contrário, expõe. Os boçais, que tratam a Mulher como propriedade ficam irados quando denunciados. Não toleram o que consideram uma afronta a sua “macheza”.  Dão cabo ao assassinato em mais de 90% dos casos e coroam sua covardia sempre com um disparo mal dado contra a própria cabeça.

Números oficiais, após a Lei Maria da Penha comprovam que os assassinatos de mulheres que apanham de seus “companheiros” aumentaram 106% no período de um ano (2011-2012).

*Uma mulher foi morta pelo ex-companheiro na noite desta terça-feira (25/06/2013) em Caxias do Sul. A mulher de 34 anos, que contava com Medida Protetiva, ligou para a Brigada Militar quando o homem tentava arrombar a casa. 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Chansonnier



Esse escrito em tom supérfluo, com uma queda para a superficialidade é apenas para lamentar minha ausência no show do último (único) chansonnier. Neste 22 de maio de 2013 Charles Aznavour comemora seus 89 anos de vida e música. Esse artista interminável, desde 2006 em última turnê pelo mundo, afirma com quase noventa anos não se sentir acabado. Vai cantar enquanto tiver forças.

Suas canções remetem, desde os primeiros acordes à inércia cruel e ao mesmo tempo confortante das coisas boas que ficam no passado (saudosismo?). Para os jovens, coisa muito antiga, ultrapassada. É impossível ouvir Que c'est triste Venise sem mergulhar no mais profundo tédio. Para quem está no ritmo dos lék léks; Em cima! Em cima! Ou Quadradinho de oito, uma voz envelhecida entoando She may be the face I can't forget, A trace of pleasure or regret... é insuportável.

Sou um Benjamin Button às avessas, com algumas adaptações. Nasci novo, novíssimo! Meu corpo envelhece enquanto minha cabeça se rejuvenesce a cada dia, com a vantagem da experiência acumulada nas infindáveis quedas. 

Entre Claudia Leite detonando Time after time e Cindy Lauper na gravação original, fico com a segunda opção. Da mesma forma que não tenho dúvidas entre Justin Timberlake e Michael Jackson. Jacko sempre! A grande vantagem em apreciar o atual e o atemporal, é transitar pelo tempo sem precisar apresentar certidão de nascimento.

A imortalidade do artista não está na presença física e sim em sua obra. Óbvio. Aznavour, um dia partirá. Então, terei de me contentar com a Carla Bruni ronronando no aparelho de som que tenho em minha cozinha.

22 de maio. Na data em que completa 89 anos, Charles Aznavour se apresenta em Porto Alegre, no auditório Araújo Vianna.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Meu Amigo da janela



Todas as tardes após deixar minha Filha na escola, antes de ir para o trabalho vou dar um oi para um Amigo. Quando tomo a Rio Branco em direção aos Capuchinhos, já tiro o pé do acelerador a fim de ficar um tempo parado no sinal vermelho na Protásio Alves. Basta uma buzinada e lá vem Ele na janela. Seu sorriso é festivo, sincero. Carregado de um afeto que só os grandes Amigos são capazes de oferecer de forma gratuita. Quando tenho tempo, faço a volta no quarteirão e estaciono embaixo de sua janela. Pergunto se está tudo bem. Se tem feito seus passeios ou encarado longas horas sozinho naquele apartamento. Nosso encontro é rápido, segundos talvez. Não sei se lhe faço bem com minha pressa que sempre abrevia nossa conversa, pois ao dobrar a esquina ainda ouço seus latidos.

Não sei o seu nome; idade; se tem outros “malucos” que fazem o mesmo. Às vezes, imagino que vá viajar ou para outro recinto, passamos longos períodos sem nos ver. E lá numa bela tarde, o vejo de novo na janela.

O criador em sua sabedoria também separou os humanos dos animais através da linguagem, da fala. Caso contrário teríamos uma série de convenções e toda uma complexidade de regras para evitarmos, entre humanos e animais, as doenças sociais e sentimentos inúteis que corroem os relacionamentos.  Há tempos tive um cão que só faltava falar – na verdade falava, Eu em minha ignorância é que não conseguia entendê-lo. - São tantos os exemplos e histórias do quanto os encontros entre humanos e animais são definitivos nas atitudes desses que dizem usar da racionalidade – Fosse isso verdade, não existiria tanto abandono e crueldade.

Já tive vontade de bater a porta da casa e pedir para ver meu Amigo. Ficarmos um tempo num silêncio de cumplicidade ou em alguma brincadeira. Mas o que seus donos pensariam? Cara maluco!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Cara! Tu é bonito!

Detalhe de Eco e Narciso - John William Waterhouse (1903)

São Pelegrino
Madrugada

Chegando em casa. De repente sinto um vulto. Alguém se aproxima de forma silenciosa. Fiquei durinho na minha – vai saber. Uns malucos descem a Pinheiro a mil num racha, pressinto que irão “queimar” o sinal vermelho no cruzamento da Feijó. Sinto um odor forte, agre, fétido. Parece ser da Pessoa que chega ao meu lado. Resolvo encará-la. É a Vivi do Loló. Gelei! Ela me encarou mesmo, olhos nos olhos. Quando preparava um argumento para lhe dizer que não tinha grana para lhe dar, Ela cruzou os braços, franziu o cenho, deixou a cabeça cair um pouco para o lado e me esquadrinhou dos pés a cabeça. Segundo eternos. Meu Deus! E agora?!

- Cara! Tu é bonito!

Em matéria de beleza, não sou nenhum Narciso, até porque tenho espelho em casa. Sei também que a percepção do belo está associada a um processo cognitivo e, é possível que a Vivi não estivesse, digamos, sóbria. Então, não me convenci de sua afirmação.

Não acho graça nas piadas que fazem com a Vivi. Penso que sua condição é na verdade uma tragédia com um pouco de cada um que vive nessa cidade. Mas confesso que sorri quando entrei em casa e diante do espelho confirmei que, ao menos Ela tem senso de humor. Ainda. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Me chamaram de velho

Hoje, um colega do jornalismo me chamou de velho. Discutíamos sobre um termo, se deveria ou não ser usado. Argumentei que a utilização permanente da linguagem dita “moderna” carece de cultura, não a cultura pedante dos bancos acadêmicos, mas aquela do olhar, do toque no ambiente. Somos aculturados, sabemos tudo sobre o resto do mundo e ignoramos aquilo que nos rodeia. Quando um argumento prevaleceu sobre o outro:

- Bah! Tu é um velho mesmo! Não dá pra discutir contigo!

Como sou velho, concordei com a expressão “moderna” e a paz segue reinando no trabalho. Há pouco quando completei quarenta e cinco anos, fui tomado por pensamentos sobre meu futuro. Que tempo ainda tenho de vida? Terei boa saúde? Conseguirei acompanhar as mudanças para estar presente à minha Filha?

Quando lembrei de Pessoas que admiro, minha Avó Angelina que criou sozinha doze filhos e, não há um dia que Eu não lembre do amor que sempre teve comigo. Outros que são “famosos” portanto poderiam ser de conhecimento de quem é aculturado, me sinto feliz por já ser velho (segundo meu colega) e ainda ter uma velhice inteira para viver.

Abaixo alguns de meus ídolos:

Maria Dolores Pradera, 89 anos. Voz e jeito de cantar como poucos para a música latina.
















José Hamilton Ribeiro, 77 anos. Jornalista de uma sensibilidade difícil de encontrar nos novos profissionais, tão preocupados com a vaidade e a velocidade da notícia.
Na foto: José Hamilton Ribeiro quando repórter da Revista Realidade na cobertura da Guerra do Vietnã em 1968. Ao pisar numa mina terrestre o Jornalista perdeu a parte inferior de uma das pernas.
Manoel de Barros , 97 anos. O poeta da imagem estampada na palavra, do lirismo acolhedor, logo na primeira leitura.

Louise Bourgeois, que viveu até os 98 anos. Escultora do surrealismo incômodo e ao mesmo tempo sedutor, do abstrato tão abrangente quanto a metáfora insistente em ser realidade.
Espero ter muito tempo de velhice, para chegar perto do que foi minha Avó Angelina e desses que são referências culturais. Ainda que distantes da realidades dos “modernismos”.

terça-feira, 5 de março de 2013

Diletantismo na miséria



Durante uma semana encontrei no centro de Porto Alegre o Morador de Rua da foto acima. 


Naqueles dias de calor opressor, me perdia do ritmo nervoso dos passantes toda vez que me deparava com aquela figura. 

Sempre tinha algo para ler sob os olhos. Mas que diabos! Minha inconformidade com aquela cena me remetia imediatamente a uma espécie de inveja, ciúmes por não ter o mesmo privilégio. 

Ao mesmo tempo uma curiosidade monstruosa. Como uma Pessoa naquelas condições consegue manter o interesse pela leitura? Porque chegou àquela condição? O que estaria lendo? Seria alfabetizado mesmo ou olhar sobre as letras fazia parte, apenas de delírios resultantes da vida desamparada na selva urbana?

Todo tipo de sofrimento que a miséria causa, deveria privar o ser humano do diletantismo, no entanto aquele homem que vive dos restos que encontra nas latas de lixo, da caridade quase mesquinha de alguém que passa e que, possivelmente enfrenta todo tipo de privação. - Talvez aquele homem sofra em apenas alguns dias o que alguém em condições normais leva uma vida toda para sofrer. - Ainda assim, se interessa pelos mundos inverossímeis criados pela literatura.

Em meio a tanta privação não se utiliza de futilidades como desculpas para não ler. Aliás, minha desculpa é a falta de tempo: Cuidar e educar uma Filha; a profissão; o tempo desperdiçado no trânsito, tudo em sequência na rotina diária me faz restar míseros minutos para o prazer da leitura. 

Em suma, não tenho tempo para ler o quanto gostaria. - E o que dizer do Morador de rua?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pelos


A lâmina que raspa a pele tensa e corta a barba, ao mínimo desequilíbrio pode romper a jugular e o sujeito esvair-se em sangue. 


Por isso, poucas, pouquíssimas relações se estabelecem na confiança absoluta que existe entre cliente e barbeiro.

Tal relação tem seu ápice quando ao dar os últimos retoques o barbeiro lhe mira pelo espelho e pergunta: 

- Quer cortar os pelos do nariz? Humilhação, total. 

Lembro de uma vez quando conversando com uma colega, ela não tirava o olhar do meu nariz. Descobri mais tarde frente a um espelho o que havia chamado sua atenção: os pelos que se esparramavam por minhas narinas. Eu era um javali! 

Há tempos luto contra os xaxins que semanalmente crescem em minhas orelhas. Desenvolvi técnica e habilidade com a pinça para me livrar deles. 

Após consentir que me cortasse os ancestrais pelos do nariz:

- E as sobrancelhas? Também quer cortar?
- Putz! Estão tão longas assim?
- Parecem taturanas.

É um tipo de cumplicidade necessária, uma intimidade permitida à alguém que lhe deixa livre dos embaraçosos sinais da decrepitude. Pelos que derrubam os pilares da autoestima são a evidência irremediável da senilidade. Poderia ser pior, imagine se fosse imposto à ala masculina a obrigatoriedade de depilar pernas, peito e costas? 

E quando começam aparecer os primeiros fios brancos entre os pubianos? - Bom, isto é outro capitulo.

(Ponto 9.º da base IX do Acordo Ortográfico de 1990, as formas pelo (contração de por + o), pêlo (substantivo) e pélo (forma do verbo pelar) deixam de se distinguir pelo acento gráfico, passando a haver apenas uma forma (pelo) para três palavras homônimas.)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ladrão de costela

Severino sempre foi exigente e vaidoso. Se era carne na hora das refeições, que fosse de bom corte. Nobre de preferência. 

Água fornecida pelo serviço publico? Nem para a higiene, preferia até de poço artesiano. 

Quando chegava num recinto, caso existisse plateia, era com aquele garbo próprio dos que se acham e, se bastam. 

O olhar cerrado; bigode sempre impecável; aparência irretocável e óbvio, com essa estampa toda, a predileção pelas mulheres. 

Não fazia o mínimo esforço e logo, mais uma conquista. Era um “Ai Severino!” pra cá “Ai Severino!” pra lá. O danado sabia como agradar e era implacável na descoberta das preferências de suas admiradoras. 

Uma pequena investida e já estava nos braços de uma Dona, escolhia primeiro as de bustos generosos, mas não dispensava as menos privilegiadas.

Numa manhã de domingo apresentei aos apetrechos da cozinha um corte de costela, digno de foto para embalagem de carne. – Para os carnívoros: Os ossos bem distribuídos; o filé de uns dois dedos de altura e aparência maturada; a manta de gordura com aspecto de granito em espessura perfeita. 

- Imagine isso tudo no crepitar das brasas!? Pensei em convidar o Amigo Severino para o ritual primitivo do churrasco. - Grotesco para os naturebas. Mas ele, ao ver aquela carne atravessada por ossos, gordura e aponeuroses iria me amaldiçoar pelo resto dos tempos. Filé, tinha de ser filé.

Era nos tempos do vinil, fui a sala escolher um Noel Guarany. 

- “Uma vez fui na cidade, na maldita perdição. Lá perdi meu Pala véio que me doeu no coração...” Passei uma flanela no disco, cutuquei a agulha com a polpa do dedo para cair o pó e larguei na primeira faixa. 

Quando retorno a cozinha me deparo com Severino abocanhando um pedaço de carne. Ficamos alguns segundos paralisados. 

Olho no olho. 

Ele com uma expressão de surpresa, Eu num misto de horror e indignação. 

Aquilo era uma traição, tantas vezes se fez exigente e me aprontar aquela? Dei de mão numa das pantufas que calçava. - Na época era casado e marido usa as pantufas da esposa nas manhãs de domingo. 

Com o máximo de precisão joguei a pantufa em Severino, que se esquivou com agilidade absurda e antes de saltar da mesa retornou para pegar um pedaço de costela. Joguei-lhe a outra pantufa em vão, pois mesmo tendo de arrastar uma carne, sua velocidade e destreza não me permitiam reação. 

Tomou o rumo do pátio e se foi. Decidi, desde então, nunca mais dar as costas para um gato quando preparar um churrasco.



quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Balas de funcho

“Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra coisa. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.” Gibran Khalil Gibran


Conheço pessoas, que apesar de saudáveis, economicamente seguras e firmes no casamento, juram que nunca terão um filho. Justificativas: crianças atrapalham, retardam os planos do casal. 

- “Você os cria; educa e depois? Tornam-se rebeldes; só causam preocupações; isso sem falar nos custos que acarretam.” 

Em fim, filhos se resumem em problemas.

Certo dia ajudei um cego atravessar a rua. Aguardamos o sinal e quando pisamos o asfalto:


- Obrigado! Preciso ir até aquela loja de 1,99 que tem no meio da quadra, eu acho.

- Ok meu amigo, ajudo você.


- Como está o tempo? Esse ar frio que sinto é sinal de chuva? Está nublado não está?


- Sim, está com um jeitão de chuva. Logo, logo.

- Então preciso me apressar. Vou comprar umas balas de funcho pro meu Pai, ele gosta muito dessas balas, o meu velhinho. 



Enquanto atravessávamos a rua, pensei: o que levaria aquele homem arriscar-se pelas ruas de uma cidade grande em busca de guloseimas? Sim! Eram para seu Pai; provavelmente já bem idoso, mas nas suas condições eu mesmo não sei se teria essa iniciativa. 

Quem enxerga, mesmo que feche os olhos para fazer algo, jamais saberá o que é ser cego. Não sei se o Pai é merecedor daquele esforço, mas desconfio que o Filho, apesar de suas limitações seja uma pessoa realizada.

Ser Mãe ou Pai, para uns pode ser um sacrifício descomunal, para outros uma necessidade natural que justifica a condição humana. Mesmo aqueles que por impedimentos biológicos têm sua fertilidade prejudicada, ainda assim, para estes existe o arbítrio da adoção ou simplesmente tratar as crianças com dignidade. Muitos, até adotam gente grande que precisa de afeto e orientação. 

Não gosto de balas de funcho, mas gostei da história que elas me contaram.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

A vizinha do 46

Antes que se feche, alguém puxa a porta do elevador. Paciência, só mais alguns segundos e estarei no terceiro andar. Ela entra com a expressão séria, olha para o chão. A senha das pessoas que procuram evitar um simples boa noite. Toca o seu celular, ela atende:

- Oi! Tô chegando em casa, pode vir é no 46. Beijo!


Quarenta e seis, quarenta e seis, quarenta seis. Ouvi como quem recebe o sexto número que faltava na loteria. É ela! A vizinha do 46. Com ela, o som ambiente do apartamento em que moro é uma festa, no mínimo cinco dias da semana. 

Por vezes, quando estou lendo ou absorto em alguma atividade o silêncio dos cômodos de minha pequena moradia é sufocado por seus suspiros, gritinhos, urros e êxtases. A sonoridade complexa, de variados matizes e muitas nuances, não respeita a opressão das paredes do poço de luz do prédio. Entra pela janela do banheiro, procura as frestas das portas por onde passa até reverberar nas paredes de minha sala, cozinha até na área de serviço. 

Não há hora que não seja adequada. Quando ela está em casa, pelo que ouço, sempre é hora.

Quando acendeu a luz do terceiro andar saí lentamente, segurei a porta do elevador e, olhando para o chão, não tive coragem de encará-la – disse-lhe:
- Sou seu fã!

Soltei a porta e caminhei pelo corredor com aquela sensação gostosa das travessuras – Sim! um senhor de meia idade também tem o direito de se permitir.

Mais tarde, quando a noite já ia a altas horas...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Domingo, sangrento domingo

Fui convidado para um show de samba. Atração: uma banda da moda. Noite agradável, amigos, muitas mulheres. Todas lindas.

Após o burburinho que antecede os espetáculos chega a hora da apresentação. A banda é boa, músicos talentosos, nas primeiras batidas o público está arrebatado. Muita bebida, gente beijando na boca e, claro, sambando.

É bonito (e muito bom) ver o público feminino no ritmo do samba. O movimento dos quadris, a sensualidade do requebrar. 

Tudo perfeito. Quase. 

Não fosse a minha rabugice tomar conta do momento em que foi executado o hit Sunday, bloddy sunday

Enquanto o público em êxtase cantava. A ala masculina a plenos pulmões e a feminina remexendo até o chão, mordendo a pontinha do dedo e fazendo carinha de safadeza. O refrão da música rebatia em minha cabeça: "Domingo, sangrento domingo!" 

Só conseguia pensar em tiros disparados contra uma multidão desarmada, pessoas baleadas agonizando no asfalto, desespero por toda parte. Um Guernica pintado ao som de um samba.

Sei que a letra de um samba também pode ser triste, descrever um fato, uma situação que mereça reflexão. Sou fã de vários com temática para pensar. Mas não creio que a banda U2 tenha feito Sunday, bloddy sunday para que um dia, alguém pudesse dançá-la com a cabeça na bunda

Desculpem! Sei que ninguém é obrigado dominar outro idioma, a ponto de se preocupar em saber o que diz a letra de tal música. E cada um dança o que bem entender, mas...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Feelings


Outro dia, na vitrine de uma livraria, um título me chamou atenção: Saiba como controlar seus sentimentos e emoções. Algo que nunca pensei. Controlar sentimentos? Emoções? Pra que? 

O ser humano é incompetente na sua busca pelo domínio dos sentimentos. Desconfia-se, que jamais conseguirá. Longe da pretensão de promover reparos nos seculares estudos da psique, o que digo? Por mais que a Pessoa tente controlar o que sente, será sempre subjugada. 

Essa estrutura biológica que é o ser humano necessita de drogas para conter os efeitos das reações químicas em seu corpo. O controle daquilo que sente, só é possível (quando é) com a administração de remédios. Qualquer outra ação é mera especulação, experimento ou subterfúgio.

À margem das definições científicas, prefiro essa condição miserável, de homem sujeito aos perigos dos sentimentos e emoções. Imagine ter o controle do que se sente? Confrontado com a imagem de um filho recém nascido, com o sorriso da pessoa amada ou a cama quentinha após a jornada de trabalho, ninguém vai lembrar de acionar o ‘botão” das sensações. 

Simplesmente se mergulha no momento. Sentir e se emocionar é para aqueles que se preocupam tão somente em viver.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Para saciar a fome foi ao cinema


Vou ao cinema sozinho e já surpreendi muita gente com esse desplante, não necessitar companhia para fazer um programa que virou instituição de pares ou de grupos. 

Aquele que ousar ir ao cinema sozinho será visto e perseguido como um alienígena na sala é descoberto mesmo no escurinho, até por retardatários que apesar de existirem poltronas disponíveis, insistem em se acomodar nas proximidades. Só para vigiar, com sentenças do tipo: Coitado! Não é daqui, deve ser de fora! 

Não bastasse isso, está cada vez mais chato ir ao cinema. Foi-se o tempo em que se fazia silêncio, o máximo era uma gargalhada geral provocada por uma boa comédia ou suspiros e sustos nos suspenses e cenas de horror. 

O filme, propósito da reunião no local fica em último plano, para a maioria. O interesse das Pessoas está nas guloseimas. Não conheço lugar onde se come tanto quanto em uma sala de cinema. 

Aí começa a minha rabugice, a comilança produz sons desagradáveis, se ouve até arrotos. Se Você não é um dos comensais, fica difícil aturar a mastigação de pipocas, salgadinhos e doces. Imagine, em média, umas cem Pessoas comendo ao mesmo tempo num local fechado, é impossível segurar a concentração.

Os cinemas Investem fortunas em sonorização, para nada. Os comilões aniquilam qualquer tecnologia. Se pudessem, mastigavam as fitas dos filmes, devoravam até as poltronas e não satisfeitos fariam arrastão na praça de alimentação ao final da sessão. Bom seria, se todos se alimentassem antes de ir ao cinema.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Estou namorando a Marisa


Eu estava no sebo, com aquele vinil nas mãos. Olhei vários, mas voltei inúmeras vezes ao mesmo disco. O vendedor me perguntou: 


- Tá namorando? Conservadinho assim, é o último. Aproveita! 



Resolvi levar. Naquele disco ia junto não apenas a voz da cantora, mas também um pouco da mulher. Quem dera! 


Estou em avançada idade. O que me arrebata, atualmente, é perceber sinceridade nos gestos mais simples. Assisti uma entrevista da cantora Marisa Monte outro dia e uma afirmação sua me tocou demais. 

Quando não está fazendo música, nos estúdios ou pelos palcos mundo a fora, está cuidando de sua Filha. Toma conta de tudo, costura as próprias roupas; faz tricô e crochê. 

Já me imaginei limpando a casa, lavando e passando nossas roupas. Antes que ela sentisse fome, perguntaria: - O que gostaria de comer hoje? E lá iria eu para a cozinha. E à noite? Ah... e à noite após ouvi-la...

Marisa jamais se apresentou mostrando algo além dos braços e as canelas. Está, digamos, um pouco fora da abundância (de bunda mesmo, principal atributo artístico neste País) que é preferência nacional. Alguém poderá dizer: Ela nem é bonita. Não importa, subjetividade não se explica. 

Nessa questão estética, o amor é um colírio mágico. Após aplicado em seus olhos, transforma quem você ama na pessoa mais linda do mundo.

Então, toda vez que perguntam, respondo: Sim! Estou namorando a Marisa. - Marisa? Sim, a Marisa Monte (no vinil é claro!). Assim como Você, cara leitora, pode "namorar" o George Clooney nas telas. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Em um relacionamento sério



Nas redes sociais, o amor está em praticamente todas as atualizações de status. On-line se ama muito, demais! 


As pessoas se apresentam num improvável estado de perfeição. Todos são tolerantes; administram bem o ciúme; admitem conceder espaço ao outro; afirmam respeitar as individualidades e compartilham lindas mensagens carregadas de romantismo. 

Tudo, cuidadosamente escolhido e postado para que haja repercussão. Muitos curtem, comentam e fazem ir adiante a "corrente do amor".

É algo tão próximo da perfeição, que as pessoas se negam viver a realidade. O pavor lhes toma conta quando se interessam por alguém, porque logo lembram: é preciso mudar no Perfil o item solteiro para relacionamento sério

Como se ingressar nessa condição fosse uma "traição" às pessoas do grupo de Amigos (queimar o filme). 

Enquanto se ama em citações, poemas, imagens, letras de músicas e vídeo clipes, vai-se o tempo. 

As pessoas preferem ficar horas e horas frente a um computador, versando teses sobre relacionamento, que confirmar pessoalmente. Expõem a vida no Facebook, vendem uma imagem que não se sustenta quando confrontada com a prática, que só a realidade oferece. 

Vida. Aquela que dá sentido à existência de um ser, só é possível através da arriscada aventura proporcionada pelo status: em um relacionamento sério

terça-feira, 15 de maio de 2012

O craque e a revelação


Sei que essas escolhas dos “melhores”, sempre, além de se originarem no campo subjetivo, da interpretação pessoal, são carregadas de estratégias e interesses. O filme do ano; a melhor música; o livro; o carro; a acompanhante; o bolinho de bacalhau de algum boteco, tudo é pura estratégia. Em algum momento, alguém irá capitalizar em torno de tal escolha.

Durante muito tempo acreditei que eleições de craques eram pleitos firmados na equidade e no sigilo. Hoje, sei que se um Cristiano Ronaldo é eleito o Bola de Ouro da FIFA, por trás já existe um complexo, porém organizado esquema que irá vender aparelhos de barba; cuecas; perfumes; ternos; carros e creme dental. Ah! Mas os escolhidos melhores do mundo, sempre estão em fase de indiscutível futebol. Concordo.

Com todo respeito à decisão dos colegas que elegeram Dátolo o craque do Gauchão, aqui na querência, onde ainda estamos um pouco longe das ações marqueteiras, essas escolhas de craques poderiam, ainda, respeitar o futebol. Que se desse o prêmio ao jogador que foi hábil, versátil e infernizou os adversários (medalhões inclusive). Tomou porrada (na final foram muitas) levantou e foi pra cima com a autoridade, que apenas os que realmente sabem jogar têm. Eu vi, será que só Eu?, um Wangler melhor. Alguém poderá objetar: mas Ele atuou menos que o colorado. Mais grave ainda! Entregar o troféu de craque à quem teve muito mais tempo para exibir um futebol médio, em menosprezo àquele que assombrou em poucas partidas, me faz sentir burro. Senhores, o Craque é Wangler e a Revelação é Dátolo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Vice-campeão


Volta e meia surge alguém sugerindo o fim dos campeonatos estaduais, não concordo. Ao contrário de incrementar a rotina dos clubes, com certames regionalizados e finais nacionais, muitos desapareceriam, não há dinheiro. Os clubes (chamados) do interior estão, há muito tempo, atolados na penúria, no pântano das máfias travestidas de dirigentes associados aos sanguessugas chamados “empresários” do futebol. O Caxias tenta contrariar esta sina. Ao menos dá sinais disso. Encarar o Internacional na grande final do Gauchão é o resultado de uma gestão que esboça um mínimo de profissionalismo. Sei que o modelo de administração desagrada, até mesmo boa parte da torcida. Que reclama da falta de “resultados”, da interrupção de “projetos” e mudanças repentinas, inexplicáveis.

No campo, o que se viu? Um Davi contra Golias, um pequeno que derrotou um gigante, sim quase derrotou, eu sei! Pois apenas o salário de um jogador colorado paga a folha de todo time grená, o Inter quase rastejou; “comeu grama”; “deu sangue”; tirou jogadores da enfermaria; fez promessas comprometendo três gerações futuras de torcedores. Só faltou apelar para o sobrenatural das mandingas utilizadas no último Grenal, tudo para ficar com o título estadual. Uma ninharia, quase nada, se compararmos os recursos de cada um.

O dois a um, constrangedor que ficou no placar, ofende um pouco a cada torcida: aos colorados, que precisam movimentar uma jamanta para “esmagar uma formiguinha”, com tamanho sofrimento e aos torcedores grenás, que viram seu time jogar como se fosse composto pelos milionários e badalados jogadores do adversário. Ainda bem que existem os campeonatos estaduais, para desmascarar algumas mentiras do futebol.



terça-feira, 8 de maio de 2012

Sagu de salva-vidas


Uma das formas mais singelas e sinceras de atestar o amor carnal é a dedicação na hora de elaborar refeições. Maridos apaixonados (parece mentira, mas existem.) se transformam em talentosos gourmets. Esposas avessas à cozinha se entregam ao sacrifício diário das panelas, tudo para agradar o cônjuge. “Amor, fiz aquela comidinha especial pra Você, não demora tá! Essa frase é um sinal verde para agarrar a Patroa pela cintura, com aquela pegada dos tempos de conquista. Mesmo quem não sabe fritar um ovo, em algum momento, irá, entre os embates libidinosos se aventurar na cozinha.

Tal demonstração de afeto que faltava a Betinho foi agravada por sua insistência em ir sozinho ao jogo, apesar das súplicas de Leonor. O resultado foi o desleixo da esposa no preparo do almoço, da janta e até da sobremesa. O empate no jogo, também lhe deixou um sabor incômodo na boca. Seu time teve tudo para vencer, mas o treinador decretou que o empate estava bom. Não permitiu que seus comandados servissem a sobremesa ao torcedor, que pagou um preço bem salgado pelo ingresso.

Após encarar aquele miserável prato de polenta, de sobremesa: sagu. Com um aspecto definido por Betinho como sagu de salva-vidas, aquele sagu que é mal cozido e permanece na superfície de um caldo ralo e extremamente forte. Fazer o quê? Encarou. Depois, ficou por alguns minutos ruminando a sentença sobre o novo treinador: retranqueiro, é retranqueiro!
Não era a primeira vez que o valor do ingresso para assistir uma partida de futebol, provocava aquele hiato conjugal, nem seria a última. Fato que o tempo apaziguaria, mas a impressão de retranqueiro passada pelo treinador, só iria se agravar.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Arroz à jardineira por cento e vinte reais


Betinho estranhou que Leonor lhe servisse um prato de salada daquele jeito, sem tempero, um fio de azeite sequer, sem sal, nenhuma gota de vinagre. Algo que desse um pouco de sabor àquelas rodelas de cenoura passadas do ponto, folhas de alface que há muito aperfeiçoaram o fel no fundo do refrigerador. Não se conhece alimento pior, mais deprimente que folhas velhas de alface. Betinho empreendeu, com o estoicismo próprio dos maridos com mais de vinte anos de matrimônio a tarefa de reduzir aquele prato de salada. Quando Leonor colocou a sua frente um arroz à jardineira que mais parecia um amontoado de sobras, suspirou! Essa comida tá uma droga! A mulher manteve um olhar entre materno e entediado. É o que tem hoje.

A resignação acompanhou o marido até o final daquele tormento, enquanto comia pensava que era um sacrifício necessário. Uma tarde inteira de trabalho duro ainda pela frente. No domingo, no estádio, a compensação. Comprovaria todas as suas teorias sobre o esquema escolhido pelo treinador, as opções no plantel e as respostas do adversário.

Aquele almoço ruim era uma reprimenda da mulher, que não terminaria ao final da partida. Nunca te peço pra me levar num jogo, agora que eu queria tanto...mas, com um ingresso a sessenta reais era impossível. Cento e vinte para ele e a mulher, o dia das mães se aproximando, mais gastos e todas as contas do mês. Definitivamente, não!

Uma vitória ou o título, acalmaria a turbulência matrimonial e até mesmo dependendo do resultado, com Leonor satisfeita tudo voltaria ao normal. Mas, aquela punição em forma de comida ruim iria custar bem mais que os cento e vinte reais para os dois irem ao jogo. Isso sim causava temor, bem maior que os efeitos de uma derrota.