terça-feira, 20 de novembro de 2012

A vizinha do 46

Antes que se feche, alguém puxa a porta do elevador. Paciência, só mais alguns segundos e estarei no terceiro andar. Ela entra com a expressão séria, olha para o chão. A senha das pessoas que procuram evitar um simples boa noite. Toca o seu celular, ela atende:

- Oi! Tô chegando em casa, pode vir é no 46. Beijo!


Quarenta e seis, quarenta e seis, quarenta seis. Ouvi como quem recebe o sexto número que faltava na loteria. É ela! A vizinha do 46. Com ela, o som ambiente do apartamento em que moro é uma festa, no mínimo cinco dias da semana. 

Por vezes, quando estou lendo ou absorto em alguma atividade o silêncio dos cômodos de minha pequena moradia é sufocado por seus suspiros, gritinhos, urros e êxtases. A sonoridade complexa, de variados matizes e muitas nuances, não respeita a opressão das paredes do poço de luz do prédio. Entra pela janela do banheiro, procura as frestas das portas por onde passa até reverberar nas paredes de minha sala, cozinha até na área de serviço. 

Não há hora que não seja adequada. Quando ela está em casa, pelo que ouço, sempre é hora.

Quando acendeu a luz do terceiro andar saí lentamente, segurei a porta do elevador e, olhando para o chão, não tive coragem de encará-la – disse-lhe:
- Sou seu fã!

Soltei a porta e caminhei pelo corredor com aquela sensação gostosa das travessuras – Sim! um senhor de meia idade também tem o direito de se permitir.

Mais tarde, quando a noite já ia a altas horas...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Domingo, sangrento domingo

Fui convidado para um show de samba. Atração: uma banda da moda. Noite agradável, amigos, muitas mulheres. Todas lindas.

Após o burburinho que antecede os espetáculos chega a hora da apresentação. A banda é boa, músicos talentosos, nas primeiras batidas o público está arrebatado. Muita bebida, gente beijando na boca e, claro, sambando.

É bonito (e muito bom) ver o público feminino no ritmo do samba. O movimento dos quadris, a sensualidade do requebrar. 

Tudo perfeito. Quase. 

Não fosse a minha rabugice tomar conta do momento em que foi executado o hit Sunday, bloddy sunday

Enquanto o público em êxtase cantava. A ala masculina a plenos pulmões e a feminina remexendo até o chão, mordendo a pontinha do dedo e fazendo carinha de safadeza. O refrão da música rebatia em minha cabeça: "Domingo, sangrento domingo!" 

Só conseguia pensar em tiros disparados contra uma multidão desarmada, pessoas baleadas agonizando no asfalto, desespero por toda parte. Um Guernica pintado ao som de um samba.

Sei que a letra de um samba também pode ser triste, descrever um fato, uma situação que mereça reflexão. Sou fã de vários com temática para pensar. Mas não creio que a banda U2 tenha feito Sunday, bloddy sunday para que um dia, alguém pudesse dançá-la com a cabeça na bunda

Desculpem! Sei que ninguém é obrigado dominar outro idioma, a ponto de se preocupar em saber o que diz a letra de tal música. E cada um dança o que bem entender, mas...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Feelings


Outro dia, na vitrine de uma livraria, um título me chamou atenção: Saiba como controlar seus sentimentos e emoções. Algo que nunca pensei. Controlar sentimentos? Emoções? Pra que? 

O ser humano é incompetente na sua busca pelo domínio dos sentimentos. Desconfia-se, que jamais conseguirá. Longe da pretensão de promover reparos nos seculares estudos da psique, o que digo? Por mais que a Pessoa tente controlar o que sente, será sempre subjugada. 

Essa estrutura biológica que é o ser humano necessita de drogas para conter os efeitos das reações químicas em seu corpo. O controle daquilo que sente, só é possível (quando é) com a administração de remédios. Qualquer outra ação é mera especulação, experimento ou subterfúgio.

À margem das definições científicas, prefiro essa condição miserável, de homem sujeito aos perigos dos sentimentos e emoções. Imagine ter o controle do que se sente? Confrontado com a imagem de um filho recém nascido, com o sorriso da pessoa amada ou a cama quentinha após a jornada de trabalho, ninguém vai lembrar de acionar o ‘botão” das sensações. 

Simplesmente se mergulha no momento. Sentir e se emocionar é para aqueles que se preocupam tão somente em viver.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Para saciar a fome foi ao cinema


Vou ao cinema sozinho e já surpreendi muita gente com esse desplante, não necessitar companhia para fazer um programa que virou instituição de pares ou de grupos. 

Aquele que ousar ir ao cinema sozinho será visto e perseguido como um alienígena na sala é descoberto mesmo no escurinho, até por retardatários que apesar de existirem poltronas disponíveis, insistem em se acomodar nas proximidades. Só para vigiar, com sentenças do tipo: Coitado! Não é daqui, deve ser de fora! 

Não bastasse isso, está cada vez mais chato ir ao cinema. Foi-se o tempo em que se fazia silêncio, o máximo era uma gargalhada geral provocada por uma boa comédia ou suspiros e sustos nos suspenses e cenas de horror. 

O filme, propósito da reunião no local fica em último plano, para a maioria. O interesse das Pessoas está nas guloseimas. Não conheço lugar onde se come tanto quanto em uma sala de cinema. 

Aí começa a minha rabugice, a comilança produz sons desagradáveis, se ouve até arrotos. Se Você não é um dos comensais, fica difícil aturar a mastigação de pipocas, salgadinhos e doces. Imagine, em média, umas cem Pessoas comendo ao mesmo tempo num local fechado, é impossível segurar a concentração.

Os cinemas Investem fortunas em sonorização, para nada. Os comilões aniquilam qualquer tecnologia. Se pudessem, mastigavam as fitas dos filmes, devoravam até as poltronas e não satisfeitos fariam arrastão na praça de alimentação ao final da sessão. Bom seria, se todos se alimentassem antes de ir ao cinema.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Estou namorando a Marisa


Eu estava no sebo, com aquele vinil nas mãos. Olhei vários, mas voltei inúmeras vezes ao mesmo disco. O vendedor me perguntou: 


- Tá namorando? Conservadinho assim, é o último. Aproveita! 



Resolvi levar. Naquele disco ia junto não apenas a voz da cantora, mas também um pouco da mulher. Quem dera! 


Estou em avançada idade. O que me arrebata, atualmente, é perceber sinceridade nos gestos mais simples. Assisti uma entrevista da cantora Marisa Monte outro dia e uma afirmação sua me tocou demais. 

Quando não está fazendo música, nos estúdios ou pelos palcos mundo a fora, está cuidando de sua Filha. Toma conta de tudo, costura as próprias roupas; faz tricô e crochê. 

Já me imaginei limpando a casa, lavando e passando nossas roupas. Antes que ela sentisse fome, perguntaria: - O que gostaria de comer hoje? E lá iria eu para a cozinha. E à noite? Ah... e à noite após ouvi-la...

Marisa jamais se apresentou mostrando algo além dos braços e as canelas. Está, digamos, um pouco fora da abundância (de bunda mesmo, principal atributo artístico neste País) que é preferência nacional. Alguém poderá dizer: Ela nem é bonita. Não importa, subjetividade não se explica. 

Nessa questão estética, o amor é um colírio mágico. Após aplicado em seus olhos, transforma quem você ama na pessoa mais linda do mundo.

Então, toda vez que perguntam, respondo: Sim! Estou namorando a Marisa. - Marisa? Sim, a Marisa Monte (no vinil é claro!). Assim como Você, cara leitora, pode "namorar" o George Clooney nas telas. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Em um relacionamento sério



Nas redes sociais, o amor está em praticamente todas as atualizações de status. On-line se ama muito, demais! 


As pessoas se apresentam num improvável estado de perfeição. Todos são tolerantes; administram bem o ciúme; admitem conceder espaço ao outro; afirmam respeitar as individualidades e compartilham lindas mensagens carregadas de romantismo. 

Tudo, cuidadosamente escolhido e postado para que haja repercussão. Muitos curtem, comentam e fazem ir adiante a "corrente do amor".

É algo tão próximo da perfeição, que as pessoas se negam viver a realidade. O pavor lhes toma conta quando se interessam por alguém, porque logo lembram: é preciso mudar no Perfil o item solteiro para relacionamento sério

Como se ingressar nessa condição fosse uma "traição" às pessoas do grupo de Amigos (queimar o filme). 

Enquanto se ama em citações, poemas, imagens, letras de músicas e vídeo clipes, vai-se o tempo. 

As pessoas preferem ficar horas e horas frente a um computador, versando teses sobre relacionamento, que confirmar pessoalmente. Expõem a vida no Facebook, vendem uma imagem que não se sustenta quando confrontada com a prática, que só a realidade oferece. 

Vida. Aquela que dá sentido à existência de um ser, só é possível através da arriscada aventura proporcionada pelo status: em um relacionamento sério

terça-feira, 15 de maio de 2012

O craque e a revelação


Sei que essas escolhas dos “melhores”, sempre, além de se originarem no campo subjetivo, da interpretação pessoal, são carregadas de estratégias e interesses. O filme do ano; a melhor música; o livro; o carro; a acompanhante; o bolinho de bacalhau de algum boteco, tudo é pura estratégia. Em algum momento, alguém irá capitalizar em torno de tal escolha.

Durante muito tempo acreditei que eleições de craques eram pleitos firmados na equidade e no sigilo. Hoje, sei que se um Cristiano Ronaldo é eleito o Bola de Ouro da FIFA, por trás já existe um complexo, porém organizado esquema que irá vender aparelhos de barba; cuecas; perfumes; ternos; carros e creme dental. Ah! Mas os escolhidos melhores do mundo, sempre estão em fase de indiscutível futebol. Concordo.

Com todo respeito à decisão dos colegas que elegeram Dátolo o craque do Gauchão, aqui na querência, onde ainda estamos um pouco longe das ações marqueteiras, essas escolhas de craques poderiam, ainda, respeitar o futebol. Que se desse o prêmio ao jogador que foi hábil, versátil e infernizou os adversários (medalhões inclusive). Tomou porrada (na final foram muitas) levantou e foi pra cima com a autoridade, que apenas os que realmente sabem jogar têm. Eu vi, será que só Eu?, um Wangler melhor. Alguém poderá objetar: mas Ele atuou menos que o colorado. Mais grave ainda! Entregar o troféu de craque à quem teve muito mais tempo para exibir um futebol médio, em menosprezo àquele que assombrou em poucas partidas, me faz sentir burro. Senhores, o Craque é Wangler e a Revelação é Dátolo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Vice-campeão


Volta e meia surge alguém sugerindo o fim dos campeonatos estaduais, não concordo. Ao contrário de incrementar a rotina dos clubes, com certames regionalizados e finais nacionais, muitos desapareceriam, não há dinheiro. Os clubes (chamados) do interior estão, há muito tempo, atolados na penúria, no pântano das máfias travestidas de dirigentes associados aos sanguessugas chamados “empresários” do futebol. O Caxias tenta contrariar esta sina. Ao menos dá sinais disso. Encarar o Internacional na grande final do Gauchão é o resultado de uma gestão que esboça um mínimo de profissionalismo. Sei que o modelo de administração desagrada, até mesmo boa parte da torcida. Que reclama da falta de “resultados”, da interrupção de “projetos” e mudanças repentinas, inexplicáveis.

No campo, o que se viu? Um Davi contra Golias, um pequeno que derrotou um gigante, sim quase derrotou, eu sei! Pois apenas o salário de um jogador colorado paga a folha de todo time grená, o Inter quase rastejou; “comeu grama”; “deu sangue”; tirou jogadores da enfermaria; fez promessas comprometendo três gerações futuras de torcedores. Só faltou apelar para o sobrenatural das mandingas utilizadas no último Grenal, tudo para ficar com o título estadual. Uma ninharia, quase nada, se compararmos os recursos de cada um.

O dois a um, constrangedor que ficou no placar, ofende um pouco a cada torcida: aos colorados, que precisam movimentar uma jamanta para “esmagar uma formiguinha”, com tamanho sofrimento e aos torcedores grenás, que viram seu time jogar como se fosse composto pelos milionários e badalados jogadores do adversário. Ainda bem que existem os campeonatos estaduais, para desmascarar algumas mentiras do futebol.



terça-feira, 8 de maio de 2012

Sagu de salva-vidas


Uma das formas mais singelas e sinceras de atestar o amor carnal é a dedicação na hora de elaborar refeições. Maridos apaixonados (parece mentira, mas existem.) se transformam em talentosos gourmets. Esposas avessas à cozinha se entregam ao sacrifício diário das panelas, tudo para agradar o cônjuge. “Amor, fiz aquela comidinha especial pra Você, não demora tá! Essa frase é um sinal verde para agarrar a Patroa pela cintura, com aquela pegada dos tempos de conquista. Mesmo quem não sabe fritar um ovo, em algum momento, irá, entre os embates libidinosos se aventurar na cozinha.

Tal demonstração de afeto que faltava a Betinho foi agravada por sua insistência em ir sozinho ao jogo, apesar das súplicas de Leonor. O resultado foi o desleixo da esposa no preparo do almoço, da janta e até da sobremesa. O empate no jogo, também lhe deixou um sabor incômodo na boca. Seu time teve tudo para vencer, mas o treinador decretou que o empate estava bom. Não permitiu que seus comandados servissem a sobremesa ao torcedor, que pagou um preço bem salgado pelo ingresso.

Após encarar aquele miserável prato de polenta, de sobremesa: sagu. Com um aspecto definido por Betinho como sagu de salva-vidas, aquele sagu que é mal cozido e permanece na superfície de um caldo ralo e extremamente forte. Fazer o quê? Encarou. Depois, ficou por alguns minutos ruminando a sentença sobre o novo treinador: retranqueiro, é retranqueiro!
Não era a primeira vez que o valor do ingresso para assistir uma partida de futebol, provocava aquele hiato conjugal, nem seria a última. Fato que o tempo apaziguaria, mas a impressão de retranqueiro passada pelo treinador, só iria se agravar.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Arroz à jardineira por cento e vinte reais


Betinho estranhou que Leonor lhe servisse um prato de salada daquele jeito, sem tempero, um fio de azeite sequer, sem sal, nenhuma gota de vinagre. Algo que desse um pouco de sabor àquelas rodelas de cenoura passadas do ponto, folhas de alface que há muito aperfeiçoaram o fel no fundo do refrigerador. Não se conhece alimento pior, mais deprimente que folhas velhas de alface. Betinho empreendeu, com o estoicismo próprio dos maridos com mais de vinte anos de matrimônio a tarefa de reduzir aquele prato de salada. Quando Leonor colocou a sua frente um arroz à jardineira que mais parecia um amontoado de sobras, suspirou! Essa comida tá uma droga! A mulher manteve um olhar entre materno e entediado. É o que tem hoje.

A resignação acompanhou o marido até o final daquele tormento, enquanto comia pensava que era um sacrifício necessário. Uma tarde inteira de trabalho duro ainda pela frente. No domingo, no estádio, a compensação. Comprovaria todas as suas teorias sobre o esquema escolhido pelo treinador, as opções no plantel e as respostas do adversário.

Aquele almoço ruim era uma reprimenda da mulher, que não terminaria ao final da partida. Nunca te peço pra me levar num jogo, agora que eu queria tanto...mas, com um ingresso a sessenta reais era impossível. Cento e vinte para ele e a mulher, o dia das mães se aproximando, mais gastos e todas as contas do mês. Definitivamente, não!

Uma vitória ou o título, acalmaria a turbulência matrimonial e até mesmo dependendo do resultado, com Leonor satisfeita tudo voltaria ao normal. Mas, aquela punição em forma de comida ruim iria custar bem mais que os cento e vinte reais para os dois irem ao jogo. Isso sim causava temor, bem maior que os efeitos de uma derrota.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Um tapa na cara


A ofensa é arma, natural, contundente e letal. Arma usada quando esgotadas todas as possibilidades do diálogo, da conduta dentro das regras universais da civilização. Em fim, só parte para a ofensa, o desprovido de argumentos, o fraco de palavras, o ignorante na essência das relações humanas. Pessoas, que ao primeiro sinal de contrariedade partem para a agressão, se parecem com crianças que não conseguem dominar suas emoções. Detalhe: crianças que se encontram na faixa do zero aos 4 anos. A teoria da personalidade de Sigmund Freud diz que, ao nascer a criança tem apenas a primeira estrutura, o Id, que representa os instintos. Ela não sabe esperar, não consegue esperar, não consegue aceitar. Quando iniciada a formação de sua segunda estrutura, o Ego, cuja função mais importante é desenvolver no indivíduo a capacidade de suportar as frustrações, quanto mais tolerante à frustração, mais o indivíduo cresce.

Ouvi dizer, que num domingo, num estádio de futebol um treinador contrariado com o desempenho de um gandula, após rápida discussão, aplicou-lhe um tapa na cara. Dizem que é preferível uma ofensa verbal à agressão. Entendo que ambas são ofensas e agridem a todos na condição humana.

Tal fato é ficção do blogueiro, pois jornalistas, atletas e dirigentes que testemunharam o tapa e até mesmo o gandula agredido, sofreram lapso de memória. Hoje não se vê em nenhum veiculo, relatos sobre o fato. O processo de memorização é complexo, envolve sofisticadas reações químicas. Os fatos antigos têm mais tempo de se fixar, o que não ocorre com fatos recentes, que têm pouco tempo para se fixarem e ainda podem ter sua capacidade de fixação alterada, por razões relacionadas a variações de estado emocional ou a problemas de ordem física. Vou creditar a isso, essa espantosa falta de memória coletiva. Mas a voz do repórter dizendo: o treinador “tal” deu tapa na cara do gandula, ainda soa em meus ouvidos como um tapa na cara.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A vida sem desgraça não tem graça

Pepe Guardiola/Foto: Getty/Mirror Sports

Após atravessar desertos, enfrentar e sobreviver às monstruosidades das privações, o homem chega ao oásis. Estabelecido no conforto que lhe oferece esse paraíso improvável, o sujeito passa a elaborar seu cotidiano com o propósito de tirar proveito, ao máximo, do melhor de seus recursos. Assim, talvez, tenha sido a vida de Pepe Guardiola no Barcelona. Cria das “canteras” do clube, imagino que os grandes desafios de Guardiola tenham sido as competições internas das categorias de base.

Como profissional, desfrutou de todas as maravilhas do futebol. Colecionou as mais raras e preciosas jóias a ponto de guardá-las em uma daquelas caixas de mogno, forradas com veludo alemão azul-grená, jóias com as quais ornamenta taças do Campeonato Espanhol; Copa do Rei; Supercopa da Espanha; Liga dos Campeões da UEFA; Supercopa Europeia; Copa do Mundo de Clubes da FIFA; Copa Audi e Troféu Joan Gamper. Deve ser muito triste a vida do homem que percebe não ter mais desafios para provar que é o melhor, para confirmar-se.

Lembro daquele sujeito que empenhado em conquistar a mulher mais linda do bairro, usou de todas as artimanhas existentes para eliminar os concorrentes e atingido o objetivo, o que fez? tempos depois foi flagrado galanteando a mais feia das redondezas. O homem não se satisfaz com a conquista, que é apenas o ponto de combustão do ritual, o bom, o melhor da “coisa” é o ritual! Acho difícil, que aos 41 anos Guardiola, que já saboreou certas delícias, abandone o futebol. Com certeza, em breve será anunciado treinador de algum time que necessita urgente de conquistas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O tédio do Barcelona



Como tudo na vida, mesmo aquilo que é muito bom! quando em excesso enche o saco e nos leva às profundezas do marasmo. Vejam o Barcelona, foi vítima da própria excelência. O time catalão atingiu um nível, tão elevado, tão próximo do sublime, que não lhe restou outro fim que o tédio. Qual é o objetivo do ser humano nessa organização de competições chamada sociedade? Ficar sempre a frente dos adversários, atingir o topo, seja no campo pessoal ou profissional. E depois, quando não há mais o que conquistar? Não vou ceder ao surrado lugar comum: quanto mais ao alto, maior o tombo.

Chegar ao nível da superioridade é o prêmio do trabalho, competência e talento, mas manter-se no posto exige mais. Por todo lado, a inveja e a cobiça. De modo que, vencer um time que iniciou uma história de êxitos lá nas categorias de base e passou anos selecionando, lapidando sua marca, empilhando troféus para se apresentar como o melhor do mundo, passa a ser o único fim da humilde existência dos adversários. Ficou claro que o Chelsea investiu toda a sua história nos dois jogos que eliminaram o Barcelona, o time inglês “comeu grama”, se multiplicou na marcação. Até o mais tosco e truculento defensor, de repente estava investido de brilhantismo no desarme aos magníficos azuis grenás. Nunca mais os Blues farão o mesmo jogo, mesmo que no futebol algumas situações se repitam a exaustão.

Ninguém, após levar dois gols no Camp Nou, sobrevive e volta para contar a história. O Chelsea ignorou essa lei, passou por cima do óbvio, da lógica, contrariou o mundo e zombou da avassaladora posse de bola do Barcelona. É tanta, mas tanta posse de bola e exagero na troca de passes, que não há outro fim que o castigo do tédio. O melhor do mundo foi punido pelos excessos na simplificação do jogo. Ainda bem que excessão não é regra.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sandro Da Cruz

Comunicador da Rádio São Francisco 560 AM de Caxias do Sul e RedeSul de Rádio.

Apresentador do programa 'Super Tarde', de segunda a sexta das 14h às 18h, e aos sábados das 13h às 18h30, da São Francisco.

Comentarista de esportes, do programa 'Dito e Feito Informação' e 'Programa de Domingo', da São Francisco.