segunda-feira, 30 de abril de 2012

Um tapa na cara


A ofensa é arma, natural, contundente e letal. Arma usada quando esgotadas todas as possibilidades do diálogo, da conduta dentro das regras universais da civilização. Em fim, só parte para a ofensa, o desprovido de argumentos, o fraco de palavras, o ignorante na essência das relações humanas. Pessoas, que ao primeiro sinal de contrariedade partem para a agressão, se parecem com crianças que não conseguem dominar suas emoções. Detalhe: crianças que se encontram na faixa do zero aos 4 anos. A teoria da personalidade de Sigmund Freud diz que, ao nascer a criança tem apenas a primeira estrutura, o Id, que representa os instintos. Ela não sabe esperar, não consegue esperar, não consegue aceitar. Quando iniciada a formação de sua segunda estrutura, o Ego, cuja função mais importante é desenvolver no indivíduo a capacidade de suportar as frustrações, quanto mais tolerante à frustração, mais o indivíduo cresce.

Ouvi dizer, que num domingo, num estádio de futebol um treinador contrariado com o desempenho de um gandula, após rápida discussão, aplicou-lhe um tapa na cara. Dizem que é preferível uma ofensa verbal à agressão. Entendo que ambas são ofensas e agridem a todos na condição humana.

Tal fato é ficção do blogueiro, pois jornalistas, atletas e dirigentes que testemunharam o tapa e até mesmo o gandula agredido, sofreram lapso de memória. Hoje não se vê em nenhum veiculo, relatos sobre o fato. O processo de memorização é complexo, envolve sofisticadas reações químicas. Os fatos antigos têm mais tempo de se fixar, o que não ocorre com fatos recentes, que têm pouco tempo para se fixarem e ainda podem ter sua capacidade de fixação alterada, por razões relacionadas a variações de estado emocional ou a problemas de ordem física. Vou creditar a isso, essa espantosa falta de memória coletiva. Mas a voz do repórter dizendo: o treinador “tal” deu tapa na cara do gandula, ainda soa em meus ouvidos como um tapa na cara.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A vida sem desgraça não tem graça

Pepe Guardiola/Foto: Getty/Mirror Sports

Após atravessar desertos, enfrentar e sobreviver às monstruosidades das privações, o homem chega ao oásis. Estabelecido no conforto que lhe oferece esse paraíso improvável, o sujeito passa a elaborar seu cotidiano com o propósito de tirar proveito, ao máximo, do melhor de seus recursos. Assim, talvez, tenha sido a vida de Pepe Guardiola no Barcelona. Cria das “canteras” do clube, imagino que os grandes desafios de Guardiola tenham sido as competições internas das categorias de base.

Como profissional, desfrutou de todas as maravilhas do futebol. Colecionou as mais raras e preciosas jóias a ponto de guardá-las em uma daquelas caixas de mogno, forradas com veludo alemão azul-grená, jóias com as quais ornamenta taças do Campeonato Espanhol; Copa do Rei; Supercopa da Espanha; Liga dos Campeões da UEFA; Supercopa Europeia; Copa do Mundo de Clubes da FIFA; Copa Audi e Troféu Joan Gamper. Deve ser muito triste a vida do homem que percebe não ter mais desafios para provar que é o melhor, para confirmar-se.

Lembro daquele sujeito que empenhado em conquistar a mulher mais linda do bairro, usou de todas as artimanhas existentes para eliminar os concorrentes e atingido o objetivo, o que fez? tempos depois foi flagrado galanteando a mais feia das redondezas. O homem não se satisfaz com a conquista, que é apenas o ponto de combustão do ritual, o bom, o melhor da “coisa” é o ritual! Acho difícil, que aos 41 anos Guardiola, que já saboreou certas delícias, abandone o futebol. Com certeza, em breve será anunciado treinador de algum time que necessita urgente de conquistas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O tédio do Barcelona



Como tudo na vida, mesmo aquilo que é muito bom! quando em excesso enche o saco e nos leva às profundezas do marasmo. Vejam o Barcelona, foi vítima da própria excelência. O time catalão atingiu um nível, tão elevado, tão próximo do sublime, que não lhe restou outro fim que o tédio. Qual é o objetivo do ser humano nessa organização de competições chamada sociedade? Ficar sempre a frente dos adversários, atingir o topo, seja no campo pessoal ou profissional. E depois, quando não há mais o que conquistar? Não vou ceder ao surrado lugar comum: quanto mais ao alto, maior o tombo.

Chegar ao nível da superioridade é o prêmio do trabalho, competência e talento, mas manter-se no posto exige mais. Por todo lado, a inveja e a cobiça. De modo que, vencer um time que iniciou uma história de êxitos lá nas categorias de base e passou anos selecionando, lapidando sua marca, empilhando troféus para se apresentar como o melhor do mundo, passa a ser o único fim da humilde existência dos adversários. Ficou claro que o Chelsea investiu toda a sua história nos dois jogos que eliminaram o Barcelona, o time inglês “comeu grama”, se multiplicou na marcação. Até o mais tosco e truculento defensor, de repente estava investido de brilhantismo no desarme aos magníficos azuis grenás. Nunca mais os Blues farão o mesmo jogo, mesmo que no futebol algumas situações se repitam a exaustão.

Ninguém, após levar dois gols no Camp Nou, sobrevive e volta para contar a história. O Chelsea ignorou essa lei, passou por cima do óbvio, da lógica, contrariou o mundo e zombou da avassaladora posse de bola do Barcelona. É tanta, mas tanta posse de bola e exagero na troca de passes, que não há outro fim que o castigo do tédio. O melhor do mundo foi punido pelos excessos na simplificação do jogo. Ainda bem que excessão não é regra.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sandro Da Cruz

Comunicador da Rádio São Francisco 560 AM de Caxias do Sul e RedeSul de Rádio.

Apresentador do programa 'Super Tarde', de segunda a sexta das 14h às 18h, e aos sábados das 13h às 18h30, da São Francisco.

Comentarista de esportes, do programa 'Dito e Feito Informação' e 'Programa de Domingo', da São Francisco.