sexta-feira, 4 de maio de 2012

Arroz à jardineira por cento e vinte reais


Betinho estranhou que Leonor lhe servisse um prato de salada daquele jeito, sem tempero, um fio de azeite sequer, sem sal, nenhuma gota de vinagre. Algo que desse um pouco de sabor àquelas rodelas de cenoura passadas do ponto, folhas de alface que há muito aperfeiçoaram o fel no fundo do refrigerador. Não se conhece alimento pior, mais deprimente que folhas velhas de alface. Betinho empreendeu, com o estoicismo próprio dos maridos com mais de vinte anos de matrimônio a tarefa de reduzir aquele prato de salada. Quando Leonor colocou a sua frente um arroz à jardineira que mais parecia um amontoado de sobras, suspirou! Essa comida tá uma droga! A mulher manteve um olhar entre materno e entediado. É o que tem hoje.

A resignação acompanhou o marido até o final daquele tormento, enquanto comia pensava que era um sacrifício necessário. Uma tarde inteira de trabalho duro ainda pela frente. No domingo, no estádio, a compensação. Comprovaria todas as suas teorias sobre o esquema escolhido pelo treinador, as opções no plantel e as respostas do adversário.

Aquele almoço ruim era uma reprimenda da mulher, que não terminaria ao final da partida. Nunca te peço pra me levar num jogo, agora que eu queria tanto...mas, com um ingresso a sessenta reais era impossível. Cento e vinte para ele e a mulher, o dia das mães se aproximando, mais gastos e todas as contas do mês. Definitivamente, não!

Uma vitória ou o título, acalmaria a turbulência matrimonial e até mesmo dependendo do resultado, com Leonor satisfeita tudo voltaria ao normal. Mas, aquela punição em forma de comida ruim iria custar bem mais que os cento e vinte reais para os dois irem ao jogo. Isso sim causava temor, bem maior que os efeitos de uma derrota.

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