terça-feira, 20 de novembro de 2012

A vizinha do 46

Antes que se feche, alguém puxa a porta do elevador. Paciência, só mais alguns segundos e estarei no terceiro andar. Ela entra com a expressão séria, olha para o chão. A senha das pessoas que procuram evitar um simples boa noite. Toca o seu celular, ela atende:

- Oi! Tô chegando em casa, pode vir é no 46. Beijo!


Quarenta e seis, quarenta e seis, quarenta seis. Ouvi como quem recebe o sexto número que faltava na loteria. É ela! A vizinha do 46. Com ela, o som ambiente do apartamento em que moro é uma festa, no mínimo cinco dias da semana. 

Por vezes, quando estou lendo ou absorto em alguma atividade o silêncio dos cômodos de minha pequena moradia é sufocado por seus suspiros, gritinhos, urros e êxtases. A sonoridade complexa, de variados matizes e muitas nuances, não respeita a opressão das paredes do poço de luz do prédio. Entra pela janela do banheiro, procura as frestas das portas por onde passa até reverberar nas paredes de minha sala, cozinha até na área de serviço. 

Não há hora que não seja adequada. Quando ela está em casa, pelo que ouço, sempre é hora.

Quando acendeu a luz do terceiro andar saí lentamente, segurei a porta do elevador e, olhando para o chão, não tive coragem de encará-la – disse-lhe:
- Sou seu fã!

Soltei a porta e caminhei pelo corredor com aquela sensação gostosa das travessuras – Sim! um senhor de meia idade também tem o direito de se permitir.

Mais tarde, quando a noite já ia a altas horas...