sexta-feira, 1 de novembro de 2013

50 Tons de cinza

Vovó já dizia: “Não deves falar sobre aquilo que não sabes.”


E então fui ler 50 tons de cinza. E, sim, gosto é gosto. Mas como não refletir sobre a quantidade (enorme) de Pessoas que mudaram de vida (sexual) após tal leitura?


Bom, em se tratando de gosto, que baita porcaria de livro! 

Sobre a libido que começou jorrar em alguns corpos, cada um na sua. Mas afirmar que subiram paredes e penetraram fundo no jardim das delícias e justificaram com todas as glândulas o sorriso de satisfação da manhã seguinte, por que leram esse “livro”?! 



Se é para badalar livro de auto-ajuda sexual, prefiro um velho e bom Carlos Zéfiro. Até mesmo o Mestre (Devasso) Nelson Rodrigues com suas passagens de “A vida como ela é”.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Lei Maria da Penha, inócua e deletéria

Ela espera com ansiedade a saída do companheiro da prisão. Mas não por saudade. É por medo, pavor! “Ele vai me matar.", diz a mulher que sofreu por anos nas mãos de um homem violento. Após tanto tempo de agressões diárias, ela resolveu dar um basta no sofrimento. Registrou queixa contra o marido. Ela é uma das milhares (talvez milhões) de mulheres que romperam o medo,  procuraram abrigo na justiça e acabaram mortas.

No dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher), fui convidado a participar do Programa Dito e Feito Debate, na Rádio São Francisco. 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Charles Aznavour - Chansonnier




Esse escrito em tom supérfluo, com uma queda para a superficialidade é apenas para lamentar minha ausência no show do último (único) chansonnier. 

Neste 22 de maio de 2013, Charles Aznavour comemora seus 89 anos de vida e música. Esse artista interminável, desde 2006 em última turnê pelo mundo, afirma com quase noventa anos não se sentir acabado. 

Vai cantar enquanto tiver forças.

Suas canções remetem, desde os primeiros acordes à inércia cruel e ao mesmo tempo confortante, das coisas boas que ficam no passado. 

Para os jovens, coisa muito antiga, ultrapassada. É impossível ouvir Que c'est triste Venise sem mergulhar no mais profundo tédio. 

Para quem está no ritmo dos lék léks; Em cima! Em cima! Ou Quadradinho de oito, uma voz envelhecida entoando She may be the face I can't forget, A trace of pleasure or regret... é insuportável.

Sou um Benjamin Button às avessas, com algumas adaptações. Nasci novo, novíssimo! Meu corpo envelhece enquanto minha cabeça se rejuvenesce a cada dia. 

Entre Claudia Leite detonando Time after time e Cindy Lauper na gravação original, fico com a segunda opção. Da mesma forma que não tenho dúvidas entre Justin Timberlake e Michael Jackson. 

Jacko sempre! 

A imortalidade do artista está em sua obra. 

Aznavour, um dia partirá. Óbvio. Então, terei de me contentar com a Carla Bruni ronronando no aparelho de som que tenho em minha cozinha.

22 de maio de 2013. Na data em que completou 89 anos, Charles Aznavour se apresentou em Porto Alegre, no auditório Araújo Vianna.





sexta-feira, 5 de abril de 2013

Minha amiga da janela



Todas as tardes após deixar minha filha na escola, vou dar um oi para uma Amiga. 

Quando tomo a Rio Branco em direção aos Capuchinhos, já tiro o pé do acelerador a fim de ficar um tempo parado no sinal vermelho na esquina da Protásio Alves. 

Basta uma buzinada e lá vem ela na janela. 

Seu sorriso é festivo. Carregado de um afeto que só os grandes amigos são capazes de oferecer. Quando tenho tempo, faço a volta no quarteirão e estaciono embaixo de sua janela. 

Pergunto se está tudo bem. Se tem feito seus passeios ou encarado longas horas sozinha naquele apartamento. Nosso encontro é rápido. Não sei se lhe faço bem com minha pressa que sempre abrevia nossa conversa, pois ao dobrar a esquina ainda ouço seus latidos.

Não sei o seu nome; idade; se tem outros malucos que fazem o mesmo. 

O criador separou os humanos dos animais através da linguagem, da fala. Caso contrário teríamos uma série de convenções e toda uma complexidade de regras para evitar, entre humanos e animais, as doenças sociais e sentimentos que corroem os relacionamentos.  

Há tempos tive um cão que só faltava falar – na verdade falava, eu em minha ignorância é que não conseguia entendê-lo. 

Já tive vontade de bater a porta da casa e pedir para ver minha Amiga. Ficarmos um tempo num silêncio de cumplicidade ou em alguma brincadeira. 

Mas o que seus donos pensariam? 

Cara maluco!


terça-feira, 2 de abril de 2013

Cara! Tu é bonito!

Detalhe de Eco e Narciso - John William Waterhouse (1903)

Bairro São Pelegrino
Madrugada

De repente sinto um vulto. Alguém se aproxima de forma silenciosa. Fiquei durinho na minha – vai saber. 

Uns malucos descem a Pinheiro a mil num racha, pressinto que irão “queimar” o sinal vermelho no cruzamento da Feijó. Sinto um odor forte, agre, fétido. Parece ser da Pessoa que chega ao meu lado. 

Resolvo encará-la. É a Vivi do Loló! 

Gelei! Ela me encarou mesmo, olhos nos olhos. Quando preparava um argumento para lhe dizer que não tinha grana para lhe dar, Ela cruzou os braços, franziu o cenho, deixou a cabeça cair um pouco para o lado e me esquadrinhou dos pés a cabeça. Segundo eternos. 

Meu Deus! E agora?!

- Cara! Tu é bonito!

Em matéria de beleza, não sou nenhum Narciso. Sei que a percepção do belo está associada a um processo cognitivo e, é possível que a Vivi não estivesse, digamos, sóbria. Então, não me convenci de sua afirmação.

Não acho graça nas piadas que fazem com a Vivi. Penso que sua condição é na verdade uma tragédia com um pouco de cada um que vive nessa cidade. Mas confesso que sorri quando entrei em casa e diante do espelho confirmei que, ao menos Ela tem senso de humor. Ainda. 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Me chamaram de velho

Hoje, um colega do jornalismo me chamou de velho. 

Discutíamos sobre um termo, se deveria ou não ser usado. Argumentei que a utilização permanente da linguagem dita moderna carece de cultura, não a cultura pedante dos bancos acadêmicos, mas aquela do olhar, do toque no ambiente. 

Somos aculturados, sabemos tudo sobre o resto do mundo e ignoramos aquilo que nos rodeia. 

E quando um argumento prevaleceu sobre o outro:

- Bah! Tu é um velho mesmo! Não dá pra discutir contigo!

Como sou velho, concordei com a expressão “moderna” e a paz segue reinando no trabalho. 

Há pouco quando completei quarenta e nove anos, fui tomado por pensamentos sobre meu futuro. Que tempo ainda tenho de vida? Terei boa saúde? Conseguirei acompanhar as mudanças para estar presente à minha Filha?

Lembro de minha avó Angelina que criou sozinha doze filhos e me sinto feliz por já ser velho (segundo meu colega) e ainda ter uma velhice inteira para viver.

terça-feira, 5 de março de 2013

Diletantismo na miséria


Durante uma semana encontrei no centro de Porto Alegre o morador de rua da foto acima. 

Naqueles dias de calor opressor, me perdia do ritmo nervoso dos passantes toda vez que me deparava com aquela figura. 

Sempre tinha algo para ler sob os olhos. 

- Mas que diabos! 

Minha inconformidade com aquela cena me remetia à um combo de curiosidades

Como alguém naquelas condições consegue manter o interesse pela leitura? Porque chegou àquela condição? O que estaria lendo? Seria alfabetizado mesmo ou olhar sobre as letras fazia parte, apenas de delírios resultantes da vida desamparada na selva urbana?

Todo tipo de sofrimento que a miséria causa, deveria privar o ser humano do diletantismo, no entanto aquele homem que vive dos restos que encontra nas latas de lixo, da caridade quase mesquinha de alguém que passa e que, possivelmente enfrenta todo tipo de privação, ainda assim, se interessa pela literatura.

Em meio a tanta privação não se utiliza de desculpas para não ler. Aliás, minha desculpa é a falta de tempo: cuidar e educar uma filha; a profissão; o tempo desperdiçado no trânsito, tudo em sequência na rotina diária me faz restar míseros minutos para o prazer da leitura. 

Não tenho tempo para ler o tanto quanto gostaria. 

- E o que dizer do morador de rua?

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pelos


A lâmina que raspa a pele tensa e corta a barba, ao mínimo desequilíbrio pode romper a jugular e o sujeito esvair-se em sangue. 

Por isso, poucas, pouquíssimas relações se estabelecem na confiança absoluta que existe entre cliente e barbeiro.

Tal relação tem seu ápice quando ao dar os últimos retoques o barbeiro lhe mira pelo espelho e pergunta: 

- Quer cortar os pelos do nariz? 

Humilhação, total. 

Lembro de uma vez quando conversando com uma colega, ela não tirava os olhos do meu nariz. 

Descobri mais tarde frente a um espelho o que havia chamado sua atenção: os pelos que se esparramavam por minhas narinas. 

- Eu era um javali! 

Há tempos luto contra os xaxins que semanalmente crescem em minhas orelhas. Desenvolvi técnica e habilidade com a pinça para me livrar deles. 

Após consentir que me cortasse os ancestrais pelos do nariz:

- E as sobrancelhas? Também quer cortar?
- Putz! Estão tão longas assim?
- Parecem taturanas.

É um tipo de cumplicidade necessária, uma intimidade permitida à alguém que lhe deixa livre dos sinais da decrepitude. Pelos que derrubam os pilares da autoestima são a evidência irremediável da senilidade. 

Poderia ser pior, imagine se fosse imposto à ala masculina a obrigatoriedade de depilar pernas, peito e costas? 

E quando começam aparecer os primeiros fios brancos entre os pubianos? 

- Bom, isto é outro capitulo.

(Ponto 9.º da base IX do Acordo Ortográfico de 1990, as formas pelo (contração de por + o), pêlo (substantivo) e pélo (forma do verbo pelar) deixam de se distinguir pelo acento gráfico, passando a haver apenas uma forma (pelo) para três palavras homônimas.)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Ladrão de costela

Severino sempre foi exigente e vaidoso. 

Carne nas refeições, que fosse de bom corte. Nobre de preferência. 

Quando chegava num recinto, caso existisse plateia, era com aquele garbo próprio dos que se acham e, se bastam. 

O olhar cerrado; bigode sempre impecável; aparência irretocável e óbvio, com essa estampa toda, a predileção pelas mulheres. 

Não fazia o mínimo esforço e logo, mais uma conquista. 

Era um “Ai Severino!” pra cá “Ai Severino!” pra lá. O danado sabia como agradar e era implacável na descoberta das preferências de suas admiradoras. 

Uma pequena investida e já estava nos braços de uma Dona, escolhia primeiro as de bustos generosos, mas não dispensava as menos privilegiadas.

Numa manhã de domingo apresentei aos apetrechos do churrasco um corte de costela, digno de foto para embalagem de carne. – Para os carnívoros: Os ossos bem distribuídos, o filé de uns dois dedos de altura e aparência maturada, a manta de gordura com aspecto de granito em espessura perfeita. 

- Imagine isso tudo no crepitar das brasas!? 

Pensei em convidar o amigo Severino para o ritual primitivo do churrasco. - Grotesco para os naturebas. Mas ele, ao ver aquela carne atravessada por ossos, gordura e aponeuroses iria me amaldiçoar pelo resto dos tempos. 

Filé, tinha de ser filé.

Era nos tempos do vinil, fui a sala escolher um Noel Guarany. 

- “Uma vez fui na cidade, na maldita perdição. Lá perdi meu Pala véio que me doeu no coração...” Passei uma flanela no disco, cutuquei a agulha com a polpa do dedo para cair o pó e larguei na primeira faixa. 

Quando retorno a cozinha me deparo com Severino abocanhando um pedaço de carne. Ficamos alguns segundos paralisados. 

Olho no olho. 

Ele com uma expressão de surpresa, eu num misto de horror e indignação. 

Uma traição, tantas vezes se fez exigente e me aprontar aquela? 

Dei de mão numa das pantufas que calçava. - Marido usa as pantufas da esposa nas manhãs de domingo. 

Com o máximo de precisão joguei a pantufa em Severino, que se esquivou com agilidade absurda e antes de saltar da mesa retornou para pegar um pedaço de costela. 

Joguei-lhe a outra pantufa em vão, pois mesmo tendo de arrastar uma carne, sua velocidade e destreza não me permitiam reação. 

Tomou o rumo do pátio e se foi. Decidi, desde então, nunca mais dar as costas para um gato quando preparar um churrasco.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Balas de funcho

“Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra coisa. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.” Gibran Khalil Gibran


Conheço pessoas, que apesar de saudáveis, economicamente seguras e firmes no casamento, juram que nunca terão um filho. Justificativas: crianças atrapalham, retardam os planos do casal. 

- “Você os cria; educa e depois? Tornam-se rebeldes; só causam preocupações; isso sem falar nos custos que acarretam.” 

Em fim, filhos se resumem em problemas.

Certo dia ajudei um cego atravessar a rua. Aguardamos o sinal e quando pisamos o asfalto:

- Obrigado! Preciso ir até aquela loja de 1,99 que tem no meio da quadra, eu acho.

- Ok meu amigo, ajudo você.

- Como está o tempo? Esse ar frio que sinto é sinal de chuva? Está nublado não está?

- Sim, está com um jeitão de chuva. Logo, logo.

- Então preciso me apressar. Vou comprar umas balas de funcho pro meu Pai, ele gosta muito dessas balas, o meu velhinho. 

Enquanto atravessávamos a rua, pensei: o que levaria aquele homem arriscar-se pelas ruas de uma cidade grande em busca de guloseimas? Sim! Eram para seu Pai; provavelmente já bem idoso, mas nas suas condições eu mesmo não sei se teria essa iniciativa. 

Quem enxerga, mesmo que feche os olhos para fazer algo, jamais saberá o que é ser cego. Não sei se o Pai é merecedor daquele esforço, mas desconfio que o Filho, apesar de suas limitações seja uma pessoa realizada.

Ser Mãe ou Pai, para uns pode ser um sacrifício descomunal, para outros uma necessidade natural que justifica a condição humana. Mesmo aqueles que por impedimentos biológicos têm sua fertilidade prejudicada, ainda assim, para estes existe o arbítrio da adoção ou simplesmente tratar as crianças com dignidade. Muitos, até adotam gente grande que precisa de afeto e orientação. 

Não gosto de balas de funcho, mas gostei da história que elas me contaram.