segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pelos


A lâmina que raspa a pele tensa e corta a barba, ao mínimo desequilíbrio pode romper a jugular e o sujeito esvair-se em sangue. 

Por isso, poucas, pouquíssimas relações se estabelecem na confiança absoluta que existe entre cliente e barbeiro.

Tal relação tem seu ápice quando ao dar os últimos retoques o barbeiro lhe mira pelo espelho e pergunta: 

- Quer cortar os pelos do nariz? 

Humilhação, total. 

Lembro de uma vez quando conversando com uma colega, ela não tirava os olhos do meu nariz. 

Descobri mais tarde frente a um espelho o que havia chamado sua atenção: os pelos que se esparramavam por minhas narinas. 

- Eu era um javali! 

Há tempos luto contra os xaxins que semanalmente crescem em minhas orelhas. Desenvolvi técnica e habilidade com a pinça para me livrar deles. 

Após consentir que me cortasse os ancestrais pelos do nariz:

- E as sobrancelhas? Também quer cortar?
- Putz! Estão tão longas assim?
- Parecem taturanas.

É um tipo de cumplicidade necessária, uma intimidade permitida à alguém que lhe deixa livre dos sinais da decrepitude. Pelos que derrubam os pilares da autoestima são a evidência irremediável da senilidade. 

Poderia ser pior, imagine se fosse imposto à ala masculina a obrigatoriedade de depilar pernas, peito e costas? 

E quando começam aparecer os primeiros fios brancos entre os pubianos? 

- Bom, isto é outro capitulo.

(Ponto 9.º da base IX do Acordo Ortográfico de 1990, as formas pelo (contração de por + o), pêlo (substantivo) e pélo (forma do verbo pelar) deixam de se distinguir pelo acento gráfico, passando a haver apenas uma forma (pelo) para três palavras homônimas.)

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