quinta-feira, 28 de março de 2013

Me chamaram de velho

Hoje, um colega do jornalismo me chamou de velho. Discutíamos sobre um termo, se deveria ou não ser usado. Argumentei que a utilização permanente da linguagem dita “moderna” carece de cultura, não a cultura pedante dos bancos acadêmicos, mas aquela do olhar, do toque no ambiente. Somos aculturados, sabemos tudo sobre o resto do mundo e ignoramos aquilo que nos rodeia. Quando um argumento prevaleceu sobre o outro:

- Bah! Tu é um velho mesmo! Não dá pra discutir contigo!

Como sou velho, concordei com a expressão “moderna” e a paz segue reinando no trabalho. Há pouco quando completei quarenta e cinco anos, fui tomado por pensamentos sobre meu futuro. Que tempo ainda tenho de vida? Terei boa saúde? Conseguirei acompanhar as mudanças para estar presente à minha Filha?

Quando lembrei de Pessoas que admiro, minha Avó Angelina que criou sozinha doze filhos e, não há um dia que Eu não lembre do amor que sempre teve comigo. Outros que são “famosos” portanto poderiam ser de conhecimento de quem é aculturado, me sinto feliz por já ser velho (segundo meu colega) e ainda ter uma velhice inteira para viver.

Abaixo alguns de meus ídolos:

Maria Dolores Pradera, 89 anos. Voz e jeito de cantar como poucos para a música latina.
















José Hamilton Ribeiro, 77 anos. Jornalista de uma sensibilidade difícil de encontrar nos novos profissionais, tão preocupados com a vaidade e a velocidade da notícia.
Na foto: José Hamilton Ribeiro quando repórter da Revista Realidade na cobertura da Guerra do Vietnã em 1968. Ao pisar numa mina terrestre o Jornalista perdeu a parte inferior de uma das pernas.
Manoel de Barros , 97 anos. O poeta da imagem estampada na palavra, do lirismo acolhedor, logo na primeira leitura.

Louise Bourgeois, que viveu até os 98 anos. Escultora do surrealismo incômodo e ao mesmo tempo sedutor, do abstrato tão abrangente quanto a metáfora insistente em ser realidade.
Espero ter muito tempo de velhice, para chegar perto do que foi minha Avó Angelina e desses que são referências culturais. Ainda que distantes da realidades dos “modernismos”.

terça-feira, 5 de março de 2013

Diletantismo na miséria



Durante uma semana encontrei no centro de Porto Alegre o Morador de Rua da foto acima. 


Naqueles dias de calor opressor, me perdia do ritmo nervoso dos passantes toda vez que me deparava com aquela figura. 

Sempre tinha algo para ler sob os olhos. Mas que diabos! Minha inconformidade com aquela cena me remetia imediatamente a uma espécie de inveja, ciúmes por não ter o mesmo privilégio. 

Ao mesmo tempo uma curiosidade monstruosa. Como uma Pessoa naquelas condições consegue manter o interesse pela leitura? Porque chegou àquela condição? O que estaria lendo? Seria alfabetizado mesmo ou olhar sobre as letras fazia parte, apenas de delírios resultantes da vida desamparada na selva urbana?

Todo tipo de sofrimento que a miséria causa, deveria privar o ser humano do diletantismo, no entanto aquele homem que vive dos restos que encontra nas latas de lixo, da caridade quase mesquinha de alguém que passa e que, possivelmente enfrenta todo tipo de privação. - Talvez aquele homem sofra em apenas alguns dias o que alguém em condições normais leva uma vida toda para sofrer. - Ainda assim, se interessa pelos mundos inverossímeis criados pela literatura.

Em meio a tanta privação não se utiliza de futilidades como desculpas para não ler. Aliás, minha desculpa é a falta de tempo: Cuidar e educar uma Filha; a profissão; o tempo desperdiçado no trânsito, tudo em sequência na rotina diária me faz restar míseros minutos para o prazer da leitura. 

Em suma, não tenho tempo para ler o quanto gostaria. - E o que dizer do Morador de rua?