quinta-feira, 28 de março de 2013

Me chamaram de velho

Hoje, um colega do jornalismo me chamou de velho. 

Discutíamos sobre um termo, se deveria ou não ser usado. Argumentei que a utilização permanente da linguagem dita moderna carece de cultura, não a cultura pedante dos bancos acadêmicos, mas aquela do olhar, do toque no ambiente. 

Somos aculturados, sabemos tudo sobre o resto do mundo e ignoramos aquilo que nos rodeia. 

E quando um argumento prevaleceu sobre o outro:

- Bah! Tu é um velho mesmo! Não dá pra discutir contigo!

Como sou velho, concordei com a expressão “moderna” e a paz segue reinando no trabalho. 

Há pouco quando completei quarenta e nove anos, fui tomado por pensamentos sobre meu futuro. Que tempo ainda tenho de vida? Terei boa saúde? Conseguirei acompanhar as mudanças para estar presente à minha Filha?

Lembro de minha avó Angelina que criou sozinha doze filhos e me sinto feliz por já ser velho (segundo meu colega) e ainda ter uma velhice inteira para viver.

terça-feira, 5 de março de 2013

Diletantismo na miséria


Durante uma semana encontrei no centro de Porto Alegre o morador de rua da foto acima. 

Naqueles dias de calor opressor, me perdia do ritmo nervoso dos passantes toda vez que me deparava com aquela figura. 

Sempre tinha algo para ler sob os olhos. 

- Mas que diabos! 

Minha inconformidade com aquela cena me remetia à um combo de curiosidades

Como alguém naquelas condições consegue manter o interesse pela leitura? Porque chegou àquela condição? O que estaria lendo? Seria alfabetizado mesmo ou olhar sobre as letras fazia parte, apenas de delírios resultantes da vida desamparada na selva urbana?

Todo tipo de sofrimento que a miséria causa, deveria privar o ser humano do diletantismo, no entanto aquele homem que vive dos restos que encontra nas latas de lixo, da caridade quase mesquinha de alguém que passa e que, possivelmente enfrenta todo tipo de privação, ainda assim, se interessa pela literatura.

Em meio a tanta privação não se utiliza de desculpas para não ler. Aliás, minha desculpa é a falta de tempo: cuidar e educar uma filha; a profissão; o tempo desperdiçado no trânsito, tudo em sequência na rotina diária me faz restar míseros minutos para o prazer da leitura. 

Não tenho tempo para ler o tanto quanto gostaria. 

- E o que dizer do morador de rua?