terça-feira, 5 de março de 2013

Diletantismo na miséria


Durante uma semana encontrei no centro de Porto Alegre o morador de rua da foto acima. 

Naqueles dias de calor opressor, me perdia do ritmo nervoso dos passantes toda vez que me deparava com aquela figura. 

Sempre tinha algo para ler sob os olhos. 

- Mas que diabos! 

Minha inconformidade com aquela cena me remetia à um combo de curiosidades

Como alguém naquelas condições consegue manter o interesse pela leitura? Porque chegou àquela condição? O que estaria lendo? Seria alfabetizado mesmo ou olhar sobre as letras fazia parte, apenas de delírios resultantes da vida desamparada na selva urbana?

Todo tipo de sofrimento que a miséria causa, deveria privar o ser humano do diletantismo, no entanto aquele homem que vive dos restos que encontra nas latas de lixo, da caridade quase mesquinha de alguém que passa e que, possivelmente enfrenta todo tipo de privação, ainda assim, se interessa pela literatura.

Em meio a tanta privação não se utiliza de desculpas para não ler. Aliás, minha desculpa é a falta de tempo: cuidar e educar uma filha; a profissão; o tempo desperdiçado no trânsito, tudo em sequência na rotina diária me faz restar míseros minutos para o prazer da leitura. 

Não tenho tempo para ler o tanto quanto gostaria. 

- E o que dizer do morador de rua?

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