segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dona Élida


"Refletindo nas dificuldades da viagem, abandonei a empresa começada com tão pouca reflexão.”

Dante Alighieri – A divina comédia – Canto II

Dia desses ao sair de casa, deparei-me com uma flor, um cravo branco equilibrado entre a maçaneta e o marco da porta do apartamento onde mora Dona Élida.

Entrei no elevador tomado pela curiosidade. Porque aquela flor estava ali? Quem a teria deixado? No prédio onde moro os habitantes vão das famílias, ditas convencionais às pessoas de estilo alternativo de vida. A maioria entre essa diversidade toda é de idosos.


Pensei: 

deve ser alguém, num arroubo de romantismo tentando conquistar a Dona Élida.

Saí pela rua com a sensação de que fui testemunha, provavelmente de uma declaração de amor. Manifestação rara, mas com a sinceridade e comprometimento, em alguns casos mais fácil de expressar quando se chega aos extremos da idade.


Mais tarde no trabalho à minha frente uma sentença difícil de aceitar, de ler: o anúncio da morte de Dona Élida.


Aquela senhora septuagenária, cujos anos haviam lhe roubado boa parte da saúde, que fora abandonada pelos parentes – nunca vi receber alguém, uma visita sequer - morria com uma demonstração de afeto de alguém que se apressou em deixar aquela flor em sua porta.


Jamais se saberá se aquele ato foi por amizade, amor ou compaixão. Ou, um amor antigo, nunca revelado. Guardado durante uma vida inteira e só manifestado após a pessoa partir, como uma última tentativa de reparar o pecado fatal da indecisão, que acovarda aquele que ama e não consegue admitir.


Sempre que lembro Dona Élida e a flor, fico com a conclusão de que foi por amor.

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